Receptação

'Morreu nos meus braços por causa de uma porcaria de celular', diz pai de vítima que tentou impedir assalto

Reportagem especial relata dor de parentes de vítimas que morreram durante assalto e o depoimento de receptadores. Receptação dolosa aumentou 30% este ano em MS.

12/02/2020 08h28
Por: Redação 2
Fonte: G1 MS
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Suspeito foi preso após 10 horas de buscas em MS — Foto: Flávio Dias/TV Morena
Suspeito foi preso após 10 horas de buscas em MS — Foto: Flávio Dias/TV Morena

O silêncio daquele momento ainda tortura a mente do pedreiro João Roberto Faustino de Souza, de 56 anos, quase dois anos após o filho dele ter sido assassinado, ao tentar ajudar uma vítima de assalto na região central de Campo Grande. O que muita gente não sabe é que a intenção do bandido era, principalmente, um celular, cujo aparelho vai parar na mão de receptadores, terceiros e, talvez, na sua mão. Um telefone que, segundo a polícia, pode ter "custado vidas".

De acordo com a Delegacia Especializada de Repressão à Roubos e Furtos (Derf), somente no mês de janeiro deste ano, 163 celulares foram roubados em via pública, em diversos bairros da cidade. Em 2019, no mesmo período, foram 230 aparelhos levados por bandidos, contabilizando uma queda de 29,1%.

No entanto, quando se fala em receptação dolosa, que é o caso de uma pessoa adquirir um aparelho sabendo que ele é ilícito, os casos tiveram aumento de 30%. Ou seja, foram 13 pessoas indiciadas por este crime no mês de janeiro, enquanto outras 10 foram indiciadas no mesmo período, porém, em 2019.

Nos casos de receptação culposa, em que a investigação apontou que a pessoa comprou sem saber que se tratava de um celular roubado, houve queda de 66,7%, sendo 2 pessoas responsabilizadas pelo crime em janeiro deste ano e, no mesmo período do ano passado, 6 indiciamentos, ainda de acordo com as estatísticas levantadas pela Derf.

No caso de roubo de celulares em via pública, foram contabilizados 2.457 aparelhos em 2019, contabilizando uma queda de 17,3% e, comparação a 2018, quando 2.792 telefones foram roubados.

"Ele morreu nos meus braços por causa de uma porcaria de celular. Não tem que me faça esquecer daquele momento. Meu filho tinha 1,90 metros. Ele me abraçou, não falou nada. Foi caindo, caindo, até que foi embora. E eu vi tudo, mas, ao mesmo tempo, não vi nada ", relembrou.

Seu João conta que ele e Antônio Marcos Rodrigues de Souza, de 34 anos, seguiam para mais uma obra. "Nós estávamos de bicicleta, era 6h10. Ele me disse: pai, o cara tá assaltando uma guria ali. Fomos atravessando a avenida [Mato Grosso] e ele foi lá. Não teve chance nenhuma, recebeu uma facada no pescoço. Essa coisa de ajudar era da índole dele, sempre se intrometeu ao ver injustiça", disse.

Em maio de 2018, ainda conforme o pedreiro, fazia pouco tempo que ele se recuperava do falecimento da esposa, quando teve que passar por uma nova tragédia. "Éramos nós três sempre: eu, minha esposa e meu filho. É um rapaz que nunca bebia, nunca fumou, era solteiro, o meu companheiro pra tudo. Fazia cinco meses e cinco dias que a mãe dele tinha morrido e eu tive que passar por mais uma. Agora, sou eu e Deus", comentou.

Ao saber que a intenção do bandido era levar o celular da vítima, a revolta do seu João foi ainda maior. "É difícil acreditar que acabaram com a vida dele por isso. Quem compra essas coisas faz parte da falcatrua. Não tem preço que pague uma vida. Eu sou super humilde, mas, tudo na minha casa tem nota fiscal e jamais compro coisas de receptador, esse mundo aí é nojento", afirmou.

Na época do crime, a polícia fez uma força-tarefa e localizou o bandido, de 23 anos, após 10 horas ininterruptas de buscas na cidade. Com a conclusão do inquérito, ele foi indiciado por latrocínio e não homicídio qualificado. Neste caso, a pena máxima salta de 20 para 30 anos de reclusão.

Na maioria dos casos ocorridos na capital sul-mato-grossense, o inquérito é instaurado na Delegacia Especializada de Repressão à Roubos e Furtos (Derf). "As pessoas que acabam adquirindo o celular geralmente nem possuíam antecedentes criminais. E elas passam a responder por receptação em razão da compra do aparelho de origem duvidosa. Não sei se se trata de oportunismo ou acreditar que a polícia não tem mais como localizar mais aquele aparelho", ressaltou ao G1 o delegado Fábio Brandalise.

Conforme o delegado, o celular, por ser um bem de consumo muito desejado, faz com que as pessoas "cresçam o olho" ao receber um preço abaixo do mercado.

"Aqui nós atendemos casos em que, eventualmente, a pessoa vê uma oportunidade de comprar um aparelho que vale R$ 1 mil por R$ 300, por exemplo. Aí, justamente quem não tinha antecedentes, responde pelo crime de receptação, com uma pena que pode chegar até 4 anos de reclusão", explicou.

É justamente o caso de um pintor e vidraceiro, de 46 anos. O homem, que não terá a identidade revelada pela reportagem, foi indiciado, há pouco mais de um mês, pelo crime de receptação. A vítima do roubo registrou queixa e, ao investigar o paradeiro do aparelho, a polícia descobriu que ele estava nas mãos do filho do pintor, de apenas 10 anos de idade.

"Ele disse que fazia serviço em uma casa no bairro Nova Campo Grande quando uma pessoa lhe ofereceu o aparelho. Ele conta que pagou muito menos por um celular avaliado em R$ 700. Em seguida, ele presenteou o filho. Esse jovem inclusive correu o risco de ser preso, caso fosse abordado na rua com o dispositivo. O resultado é que ele foi indiciado e ainda perdeu o aparelho e o dinheiro que pagou ao vendedor", ressaltou.

O pintor confessou a prática criminosa, mas, disse que não sabia que se tratava de algo roubado e se arrependeu da compra. "Eles [polícia] foram me achar depois de quase um ano. O celular ainda estava quebrado e eu gastei duzentos e pouco para arrumar. É um aparelho mais antigo e depois eu até comprei um chip e o cadastrei no meu nome. Agora, fui indiciado por receptação e vou dizer que fiquei muito chateado, a gente se arrepende muito", comentou.

Conforme o pintor, a polícia a informou que o aparelho "foi tomado em assalto" e ele jamais imaginou, já que a pessoa disse que estava vendendo porque estava quebrado. "Ele ainda disse que estava quebrado e que precisava só arrumar a tela. Queria R$ 150 no começo e depois baixou para R$ 120. Eu negociei, paguei e depois é que veio a conta e o arrependimento", lamentou.

Da mesma forma, um vendedor de televisão por assinatura, de 51 anos, foi abordado e adquiriu um telefone celular no ano de 2019. De R$ 650, ele recebeu a oferta de pagar R$ 300 pelo aparelho. "Neste caso, o suspeito disse que fazia um serviço de instalação no bairro quando foi abordado por um homem na rua. Este ofereceu o celular e ele comprou. Foi indiciado por receptação também em setembro daquele ano", argumentou Brandalise.

Atualmente, o vendedor lamenta o ocorrido e diz que comprou sem saber de que se tratava de um aparelho roubado. "Eu me arrependi muito de comprar de um desconhecido que, depois, fui saber que era receptador de celular. Na verdade, depois de quase um ano usando, fui saber que eu era receptador também. Eu, que sempre zelei pelo meu nome, fui procurado pela polícia, tive que devolver o aparelho e responder por receptação".

De acordo com o vendedor, desde então ele nunca compra mais nada sem nota fiscal. "Eu tive uma grande lição depois de passar por uma situação tão complicada. A gente compra pensando que é uma coisa boa, barada, sendo que depois só pude pegar o meu chip porque estava com algo roubado. Agora, tudo o que quero vou na loja e, nem que parcelo em dez vezes, só compro desta forma", garantiu.

Nesta quarta-feira (12) é o dia em que se completa um ano e oito meses da morte do estudante e militar da Força Aérea Brasileira (FAB), Rafael Lucas Soares, de 23 anos. Na época, a vítima estava na frente de casa, no bairro Coophatrabalho, região oeste da cidade, aguardando o ônibus enquanto mexia no aparelho celular. Ele iria para faculdade, porém, foi abordado pelo ladrão durante à noite.

Algumas horas depois, durante a madrugada, o suspeito foi preso e confessou o crime. Segundo a polícia, ele apontou um revólver de calibre 32 para o jovem e exigiu o celular. O estudante reagiu, lutou com o assaltante e foi morto com dois tiros: um no tórax e outro na perna esquerda. Depois do crime, o bandido fugiu a pé com capacete. Câmeras de segurança gravaram toda a ação.

"Todo dia 12 é o dia da minha tristeza, hoje é um dia desses. Não tem como não lembrar, principalmente porque o rapaz que cometeu o crime era um conhecido do meu filho e usou a desculpa que tinha que pagar pensão da filha. Mas, tenho certeza que queria aquele celular para trocar e usar droga. Tenho mais quatro filhos e vivo por eles, mas, não queria que ninguém mais saísse de casa", lamentou a mãe da vítima, a auxiliar de limpeza Ruth Josilene Soares, de 44 anos.

Na época, quando questionado sobre o crime, o bandido de 20 anos disse que "tinha dor nas mãos" e por isso não poderia trabalhar. "Meu filho estava cheio de sonhos, tinha 5 anos na base aérea já e estava terminando a faculdade. Ele pretendia morar fora do país e, por conta de um celular, morreu agonizando na frente de casa. Hoje, o irmão dele, que viu tudo isso, não estuda, não trabalha, não conversa com ninguém e quase não sai de casa. É muito difícil passar por tudo isso", finalizou a mãe.

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