Sem moradia

Casas da era Bernal correm risco de desabar

Moradores que deixaram favela esperam a conclusão de moradias há três anos.

05/12/2019 13h38
Por: Redação 2
Fonte: Correio do Estado
A maioria das moradias está desabando no Dom Antônio - Foto: Bruno Henrique/Correio do Estado
A maioria das moradias está desabando no Dom Antônio - Foto: Bruno Henrique/Correio do Estado

Com 42 casas concluídas e outras com construções parciais, entregues na época da gestão do ex-prefeito Alcides Bernal, casas populares correm o risco de desabar. As moradias ficam nos bairros Dom Antônio Barbosa e Vespasiano Martins, duas áreas para onde as famílias que viviam na antiga favela Cidade de Deus – próxima ao lixão de Campo Grande – foram levadas, há quase quatro anos.

Desde então, as 450 famílias, que deveriam ter sido alojadas em locais adequados, convivem com a mesma situação anterior em barracos de lona ou em casas mal construídas e prestes a ruir.

Nos outros dois bairros que receberam os moradores da favela, Canguru e Bom Retiro, a construção está parada. A prefeitura foi questionada sobre os casos dos bairros Dom Antônio Barbosa, Canguru e Bom Retiro, mas, até o fechamento desta edição, não respondeu aos questionamentos. Sobre o Vespasiano Martins, o problema do desabamento é confirmado pela Agência Municipal de Habitação (Emha).

A pior situação talvez seja a das famílias que estão no Dom Antônio Barbosa, onde boa parte das construções está desmoronando. A obra, iniciada na gestão de Bernal, foi paralisada sem conclusão.

No local é possível perceber que muitas das casas apresentam rachaduras e tijolos esfarelando. Em uma delas, o próprio morador decidiu derrubar parte da parede da frente da residência, que ameaçava cair. “Tem uns quatro meses que meu marido derrubou porque ficou com medo de que caísse em cima de uma das crianças. Está muito perigoso”, contou a dona de casa Daiane Fernandes, 27 anos.

Ela conta que o casal não deixa as crianças brincarem perto da casa, apenas no barraco montado nos fundos do terreno, onde moram os pais e os filhos de 11, 7 e 4 anos e o mais novo, de 8 meses. “Meu marido tem até deixado o mato crescer dentro da construção para que as crianças não entrem no local. Tem mais partes rachadas dentro da casa, temos medo de que caiam em um deles”, contou.

Ainda segundo Daiane, na última visita da Emha ao local, ela mostrou o estado em que estava a construção, mas nada foi feito até agora. “Eles tiraram foto e disseram que entrariam em contato, o que ainda não ocorreu”.

Outro problema no local, conforme a moradora, são as enxurradas que se formam durante a chuva e que acabam invadindo os barracos. “Aqui a gente só deixa as coisas levantadas, para evitar de perder, porque sempre que chove entra água e a gente perde muita coisa”.

No mesmo loteamento há também quem desistiu de esperar pela administração e decidiu construir por conta própria, como o trabalhador da construção civil Fausto da Conceição, 36 anos. Com a ajuda de um amigo ele esperava terminar o telhado ainda ontem. “É o meu sonho ter a minha casa. O barraco que a gente está vai desabar. Por isso estou ficando no barraco da minha mãe, porque no meu as madeiras já estão todas podres. Quando chove, fica balançando, parece que vai cair”, contou Fausto.

O trabalhador disse que, a cada mês, tira um pouquinho do seu salário para terminar a obra. Como ele já tem experiência no ramo, a casa dele teria sido aprovada pela Emha. “Têm várias casas condenadas aqui que vão ter de derrubar e fazer do zero. A minha não, porque fui eu mesmo quem fez. Está tudo certinho e coloquei um monte de ferro desde a fundação, para não dar problema”.

Há seis anos, ele, a esposa Rose Rodrigues de Menezes, 39 anos, e os cinco filhos (5, 8, 13, 16 e 17 anos) moram em barracos porque o dinheiro que Fausto recebe, um salário-mínimo, não é suficiente para pagar o aluguel e comprar alimentos.

“A gente pagava R$ 600 em uma casa alugada no Coophavilla 2, mas não tínhamos mais condições. Quando ficamos sabendo da Cidade de Deus, decidimos ir morar lá. Foram três anos e meio na favela e, agora, já tem três que estamos aqui. É muito tempo. Quinta-feira, se der, a gente já quer estar dentro da nossa casa. As crianças estão ansiosas”, conta Rose.

Os moradores afirmam que ainda não têm previsão para que a equipe da prefeitura, que está concretizando as obras, chegue até o bairro. A informação passada para eles é a de que, após terminar as obras no Bairro Bom Retiro, a equipe segue para o Jardim Canguru. Só então, depois que esses dois locais estiverem prontos, o grupo vai para o Dom Antônio. “Deve demorar uns 2 anos ainda, mas os barracos não vão durar tudo isso. Por isso nossa pressa”, disse Rose.

OUTRO LADO

Os moradores do loteamento Vespasiano Martins contestam o laudo da prefeitura que afirma que as casas do local estão condenadas e correm risco iminente de desabamento. “Eles afirmam que o problema é por conta do lençol freático que seria muito alto aqui. Mas isso só em duas ruas? Porque na frente das casas eles construíram um Ceinf. Lá está tudo bem?”, indaga o catador de recicláveis e artista plástico Jéter dos Santos Ferreira, 29 anos.

Para alguns moradores, há uma contradição em relação ao restante do bairro, já que os moradores do entorno não teriam tido a mesma orientação. As casas foram entregues em 2016 a ex-moradores da favela Cidade de Deus pela gestão de Alcides Bernal.

O laudo que aponta os problemas foi feito pela empresa Etelo Engenharia de Estruturas. “Por informações de diversos moradores concluímos que o lençol freático está muito próximo da superfície. Esse fato deve ter determinado a pequena profundidade da maioria das sapatas que, por consequência, estão apoiadas em solo úmido e com pouca capacidade de suporte”.

De acordo com os moradores, o laudo foi elaborado com o pretexto de que a administração corrigiria os erros. “Nos enganaram. Eu não vou sair daqui”, finaliza Maísa Mamedes, 27 anos.

ONG MORHAR

A construção das casas nos quatro terrenos para onde os moradores da favela Cidade de Deus foram encaminhados ficaram sob a responsabilidade da Morhar Organização Social, alvo de três investigações e tomada de contas. O Ministério Público do Estado, o MPF, o MPT e a Emha buscam responsabilizar a entidade por atos lesivos. A ONG, que firmou convênio no valor de R$ 3,6 milhões com a prefeitura em 2016 – e recebeu R$ 2,7 milhões –, deveria ter operado em sistema de mutirão. Na gestão Bernal, os moradores relataram o abandono das obras. A Morhar entregou apenas 42 das 328 casas prometidas, que são justamente as do Vespasiano Martins. 

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